A PALAVRA É PONTE DELICADA ENTRE OS HOMENS – Alberto Rostand Lanverly

A PALAVRA É PONTE DELICADA ENTRE OS HOMENS –

Há pessoas que, talvez por falta de conteúdo, transitam pelos mais diversos assuntos na ânsia de fazer-se notar, jogando com palavras, quase sempre efusivas, como quem atira pedras ao acaso, lançando-as tanto na lama quanto em orquidário belo e cheiroso, sem perceber a diferença entre sujeira e delicadeza.

O elogio fácil, repetido sem critério, perde valor, o excesso de gentileza vazia soa fingido, e aquilo que deveria elevar acaba por descredibilizar, pois a palavra, quando não nasce da verdade, transforma-se em ruído, adereço frágil usado apenas para chamar atenção.

Assim, pouco a pouco, o autor dessas falas deixa de ser levado a sério, torna-se não apenas desacreditado, mas “a boca miúda”, verdadeiro bobo da corte, divertindo por instantes, provocando sorrisos superficiais, mas sem inspirar confiança ou respeito.

Revistei tais certezas recentemente, quando participando de evento público, deparei-me com certa criatura visivelmente feia, não apenas na aparência, mas nos gestos, olhar, e até naquilo que transborda da alma, por pregar o que não pratica.

Ainda assim, vestia um cargo público que, temporariamente, lhe emprestava poder e, com ele, falsa aura de importância. Para minha surpresa, ou talvez não, certa criatura, conhecida por exaltar terceiros, sem mínimo critério a não ser o que pudesse lhe empresar momento de prestígio, ansioso por agradar, ergueu a voz como quem lança flores de plástico ao vento: “Você é o maior… você é extraordinário.”

Naquele instante, não foram apenas os adjetivos que sofreram agressão, mas a verdade, a estética, a dignidade das palavras, pois o comentário teatral exagerado, quando nasce da hipocrisia, não enaltece quem o recebe, apenas denuncia o falastrão, é aplauso vazio, reverência sem alma, espelho distorcido, onde a conveniência se olha e sorri.

“Cá com meus botões”, silencioso e atento, apenas confirmei uma certeza antiga: com certas pessoas, a sabedoria está na distância correta, nem tão perto a ponto de queimar-se na fogueira do engodo, nem tão longe a ponto de pegar o resfriado da indiferença.

Certos indivíduos esquecem que palavra é ponte delicada entre os homens, quem a usa sem verdade vira piada pronta, gracejo sem graça, lembrando antigos palhaços que divertiam reis, mas não mereciam confiança.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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