A MÚSICA EM VERÍSSIMO DE MELO – Diogenes da Cunha Lima

A MÚSICA EM VERÍSSIMO DE MELO –

​Segundo Veríssimo de Melo (1921-1996), “Música não envelhece, o que envelhece é o arranjo.” Essa revelação, entre tantas do seu pensamento/sentimento, está em carta que recebi dele (27/12/1995). Mandou-me também dois arranjos que fizera de melodias de Antônio Carlos Jobim, prometendo um tríptico. Justifica o presente: “O maior presente que se pode oferecer a um amigo é a música”.

​Para conhecer, verdadeiramente, a obra desse admirável escritor potiguar, não se pode prescindir da tese de doutorado, na UFRN, de Michelle Paulista, sob orientação do professor Humberto Hermenegildo. A autora, entre outros, registra o depoimento que dei à “Tribuna do Norte”, no qual afirmo que sua admiração musical, a de Veríssimo, era inconstante. Ora velhas canções brasileiras, ora bossa nova, os guitarristas espanhóis, o jazz de Ella Fitzgerald. Quase sempre as canções de Oriano de Almeida.

​Ele raramente escrevia letras. Suas letras eram confessionais: “Por isso gosto da lua / do violão e da rua / da boemia sem fim”. A parceria com Hianto de Almeida, interpretado por Cauby Peixoto, ganhou dimensão nacional: “Caju nasceu pra cachaça / pirão pro peixe nasceu / mulher nasceu pro amor / pro amor também nasce eu”.
Teve muitos parceiros musicais, eu entre eles. Um dia, disse-lhe que toda música tinha uma letra escondida. Bastava descobrir o esconderijo e puxar as palavras pelas orelhas. Ele, que me havia dado a sugestão de responder ao “El libro de las preguntas” de Pablo Neruda, contrapôs que todo poema do poeta chileno tinha música escondida. Que eu tratasse de descobri-la.

Vivi associava boa música à bondade, à felicidade e até ao comportamento social. Relatava ter aprendido com Shakespeare que não se deve confiar no homem que não gosta de música.

Tinha razão quando afirmava Dorian Gray que Veríssimo são muitos. Todos “eles” guiados por sua fidelidade, correção e nobreza de caráter.

Veríssimo cultivava heróis de variados matizes. Na música, Villa Lobos, João Gilberto, Menescal, Orquestra Tabajara, Paco de Lucía. A ciência e a vida de Albert Einstein eram exaltadas. Gostava de contar que Einstein tocava violino e era fascinado por música. Um rabino perguntou ao autor da Teoria da Relatividade: “O que acontecerá se a Terra se dissolver como uma nuvem?”. Foi definitiva a resposta: “A maior consequência é que ninguém mais ouvirá Mozart”.

O cientista alemão revelou os mistérios do tempo e espaço. Nesse sentido, a intuição de Jorge Luis Borges revela: “A música é uma forma misteriosa do tempo”.

Saudades e lembranças no infinito. Permite-se a Veríssimo de Melo escolher a música de sua predileção. Com intérpretes divinos.

 

 

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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