A ESTAMPA DO VILÃO –
Relendo João Ubaldo Ribeiro encontrei uma crônica publicada em novembro de 2005, no Jornal do Meio Ambiente, denominada “Precisa-se de Matéria-Prima para Construir um País”. O que foi escrito ali 11 anos atrás, de tão atual, chega a doer de revolta por nada haver mudado.
Continua atual porque nós, a matéria-prima do país, permanecemos a mesma matéria desqualificada e desacreditada para ajeitar ou dar um rumo melhor à nação. Porque ainda subornamos o guarda de trânsito para evitar a multa; adulteramos o Imposto de Renda para tungar a nação; instalamos “gatos” para furtar água ou energia elétrica; e, usamos atestados médicos sem estar doentes.
E tem mais. Orgulhamo-nos do “jeitinho brasileiro” de ser e da esperteza descabida e desonesta. Exaltamos o enriquecimento ilícito porque tal prática denota senso de oportunidade. Praticamos os fundamentos da “Lei de Gerson”, porque levar vantagem em tudo é astúcia e não malandragem.
Na maior desfaçatez, participamos de concursos ou entrevistas de emprego com certificados falsificados. Aposentados por invalidez “forjada” no Serviço Púbico, continuamos trabalhando na iniciativa privada com mais vigor e disposição que antes, sem reclamar ou demonstrar quaisquer resquícios de arrependimento.
Na concepção da matéria-prima brasileira a falta de pontualidade é charme e não falta de educação. Saquear cargas de veículos acidentados é oportunismo e não improbidade. Encontrar e se apossar de objetos perdidos é pura sorte e não apropriação indébita. Destruir patrimônio público é protesto e não burrice anormal e ilegal.
Pois bem, é essa matéria-prima contaminada que escolhe o parlamentar para nos representar no Congresso Nacional e elege dirigentes públicos para alçá-los à condição de mentores da nação. Então, com qual moral podemos reclamar dos defeitos deles? De qual autoridade dispomos para pleitear benefícios sociais, pedir mudanças estruturais ou exigir seriedade em suas ações?
Culpar o governo é culpar a nós mesmos, pois ele é o retrato fiel do povo. Moldado à imagem e semelhança da matéria-prima que o elegeu. Ao denegrir o gestor público ímpio ou o parlamentar prevaricador estamos desvalorizando a nós mesmos.
Afinal, eles são o nosso prolongamento e comungam dos mesmos defeitos que nos forjaram. E ainda temos o desplante de perguntar quem é o culpado pelos desmandos do país.
Atribuem ao general e ex-presidente francês, Charles de Gaulle, que visitou o nosso país em outubro de 1964, a controversa frase: O Brasil não é um país sério! A visão crítica atribui tal afirmativa a problemas estruturais profundos existentes na época, no país: desigualdade social, instabilidade política, fragilidade no cumprimento das leis, falhas de gestão, burocracia excessiva e corrupção endêmica.
Nós fingíamos não conhecer o problema porque nunca quisemos resolver a questão, daí alegarmos não saber a quem acusar. Eis que o próprio João Ubaldo Ribeiro, no artigo citado, nos forneceu a fórmula para identificar o culpado das mazelas do Brasil-República. Simples! É só fixarmos o olhar no espelho para vermos, claramente, a estampa do vilão.
José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil
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