VIRAMUNDO 58 – Jaecio Carlos



VIRAMUNDO 58 – 

Joaquim Oliveira é artesão de Nova Cruz, muito ligado a família Bezerra e nas horas “de folga” faz poesia e cordel.

Costuma vender seus trabalhos nas feiras de sábado usando megafone onde recita seus versos para o público.

– Quinquim precisa usar esse megafone?

– Aprendi com o pessoal que vende na rua o Picolé Caicó.

– Como assim?

– Na bicicleta tem uma caixa de som, com bateria e microfone para anunciar os produtos e são os que mais vendem picolé, graças ao barulho que fazem.

– Mas incomoda as pessoas, não?

– Não. Se não fizer barulho, não vende.

Quinquim mistura artesanato com poesia e vive disso.

Temas variados e no cordel pessoas dão o “mote” e ele improvisa, na hora.

Igual aos cantadores de viola. A feira de sábado em Nova Cruz é muito movimentada. Tem de tudo. É muito parecida com a de Caruaru em Pernambuco.

E nos anos que tem eleições, os políticos fazem a festa.

Quinquim, “caboco” sabido fazia também poesia sob encomenda.

Um dia uma mulher pediu a ele para fazer um poema pro namorado mas como se fosse ela a autora.

Um desafio. Mas ele faz o poema e a mulher ficou feliz e Quinquim disse a ela que se baseou em Chico Buarque

– Como assim?

– Ele fazia música como se fosse mulher.

– É, eu me lembro.

Depois disso o velho artesão escrevia poesia e cordel com o espirito de outras pessoas e ficou sabendo que o nome desse fenômeno era heterônimos.

– Como?

– Heterônimo. Você incorpora outra pessoa e escreve como se fosse ela, completamente diferente de você. Com vocabulário próprio da outra pessoa.

– Ê você conhece alguém que trabalha assim?

– Ouvi falar que em Portugal tinha um poeta que era heterônimo. Tinha 4 ou 5 personagens diferentes.

Quinquim de Nova Cruz quando vinha a Natal visitava Câmara Cascudo na casa dele e depois um se encontrar com

Newton Navarro e ze Areia num barzinho que tinha na Tavares de Lira com a Dr Barata, na Ribeira.

De vez em quan chegavam Djalma dos Santos e Felipe, autos funcionários do Bancaldo pra se juntarem em papos agradáveis.

Foi ali que Quinquim conheceu Luzia, garçonete linda, morena bronzeada, moradora de Santos Reis que tinha uma barraquinha na Praia do Meio.

Foi amor a primeira vista.

Foram morar juntos em Nova Cruz e tiveram 1 filha chama Patrícia.

Quinquim e Luzia montaram o Boteco do Poeta, na Praça é perto a igreja.

Nas sextas feiras, no final de tarde, costumava chegar violeiros e a cantoria misturada com cordel rolava até quase meia noite.

Luzia preparava picado com farofa d’água pra ninguém botar defeito e agrada a todos.

Patrícia, há grandinha veio estudar em Natal e foi morar com uma tia em Santos Reis.

Fez vestibular mas não passou e voltou pra Nova Cruz, morar com os pais.

No Boteco do Poeta conheceu Vanderlei, rapaz bonito, viajante de laboratório que a levou para Recife.

– Seu Van, minha filha só sai daqui casada.

– Sim senhor, mas a gente vai passar só esse fim de semana pra ela conhecer mamãe que é viúva e tá precisando de uma nora

– Ta bom. Segunda feira vocês voltam, né?

– Sim seu Quinquim, confie em mim.

Patrícia e Vanderley tiveram 2 filhos e foram morar em Recife, mas todo ano passa as férias em Nova Cruz.

Vanderley conseguiu levar seu Quinquim pra vender seus cordéis na Feira de Caruaru e lá conheceu Dominguinhos e fizeram grande amizade e quando Dominguinhos veio a Natal foi até Nova Cruz visitar o amigo no Boteco do Poeta.

Um dia encontrei Quinquim é Luiza almoçando no Farol Bar na Praia do Meio e perguntei:

– Quem o senhor se inspirou na sua poesia?

– Fernando Pessoa.

 

 

 

Jaécio Carlos –  Produtor e apresentador dos programas Café da Tarde e Tribuna Livre, para Youtube.

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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