O SINISTRO DAS HORAS – José Delfino



O SINISTRO DAS HORAS –

O maldito celular deu ocupado, o som feito repetidas reticências, indiferentes à minha angústia. O relógio voltou atrás no tempo… O estranho é que passei a pensar diferente. Entenda, eu não vou fazer você arruinar mais os seus dias: só queria lhe dizer isto. Não tem mais volta. Como “não tem”? Olha aqui, você sabe muito bem a situação em que me encontro; e está sendo de um desprezo e de uma crueldade enorme comigo; eu nunca disse que te amava; é que eu pensava… como “pensava”, eu nunca te falei nisso, você nunca me perguntou; mas eu notava em seu olhar… , o carinho que vinha deles … Porra , você não percebeu que não iria dar certo? Que foi só sexo, paixão. E que paixão se esfuma?

Os nossos caminhos se cruzaram num fortuito e banal acaso. Numa loja de livros usados. Dentro, entranhado estava, um abafado ar de mofo. Fora, as labaredas do sol do meio dia queimavam peles. Eu a manusear volumes, um tanto gastos. Em pé, em distração, que dizem de mim, quase devota. Peguei um deles e o folheei com atenção. Foi quando nossos olhares, errando ao acaso, pousaram um no outro. Encontrei o que buscava há um certo tempo. “Histórias da meia-noite , você conhece ? Sim, não é do Machado de Assis ? Arriscou uma passagem. Dessas que a gente sem saber muito bem porquê , anota ou decora e nunca mais sai da cabeça: “Providência ou acaso, tenente ? Eu sou mais pelo acaso” Ah, você o leu ? Já!Resignei-me abrir mão do avançado da hora e ver até onde iria aquilo. O preço tá ótimo, falei

Acontece que o prolongamento de conversas abre horizontes, altera propósitos, modifica o sentido, e a inocência das coisas. Eu não deveria ter me demorado tanto. Foi como um soco no meu estômago. A língua quando articulava, tornava sua boca desejável. Nos meus lábios, o desejo de beijar continha. Deles pareciam que surgia tudo o que cativa, o que seduz, o que faz a gente mudar de ideia e nos convence. Eu praticamente só ouvia. Mas é que quando, parece, mais fala o coração, os olhos dizem, as bocas veem, os lábios sentem. Daí extrapolar um certo arrepio pro resto do corpo, um passo. Se não fosse aquele instante, talvez nunca nos teríamos conhecido. Ou envolvido. Poucos minutos pra saber os nossos nomes . Que tínhamos as nossas companhias cotidianas . Nos despedimos.

Dias após, tocou o telefone. Mais dois encontros combinados. Alguns dias mais para vingar um outro reencontro. E mais um e mais outro. Juntos trocávamos palavras. Doçuras subentendidas entre vogais, consoantes, acentos, vírgulas, pausas, exclamações, parênteses, aspas, hifens. E interrogações. Não só por escrito essas coisas existem. E foi assim que descobrimos o profano da paixão. E aquela vontade infernal que não cessava em casa, ou na rua. De manhã, de tarde e de noite. E a emoção, célere, em marcha franca.

Estalei o polegar contra o dedo médio três vezes, assim ! Você está com ciúme, quer fazer dessa ópera bufa as tragédias que você tanto gosta de ler. Ora, fodam-se os Nelsons Rodrigues, os Rubem Fonsecas e seus Herculanos perdidos na noite suja. Continue. As Antígonas, as Ifigênias, as Climnestras, as Capitus. Fodam-se todas as tragédias Brasileiras e Gregas. E todos os autores que não tiveram raça em escrever outras. O assunto aqui é outro, você sabe muito bem. Mas eu te amo. Me dá uma chance. Vamos viver juntos. Nunca, nunca, ouviu ? Eu sinto tristeza… E eu, pavor. Entendeu ? Me deixa viver a minha noite. Nem pensar. A solução em mim já latente, oscilava pra cima e pra baixo do meu medo, que aumentava a cada instante.

Acendi um cigarro, fixei o olhar na ponta em brasa, dei um trago, o joguei na areia e estendi as mão abertas para o ar. Pode ser até medonho pra você, mas é tão simples como a minha vontade de dizer. Acabou ! O mundo todo vai saber. Não ficaria pior do que está. Não somos marido e mulher. Eu ouvi promessas. Nunca, antes pelo contrário. VocÊ está fora de controle . E você entendeu mal a situação, eu cometi um erro horrível, gostaria de repará-lo. Conversa fiada. O que você insinuou, não farei. Uma coisa é certa, você vai me pagar caro. Não queira se amparar em argumentos ridículos. Não sofra. Existem muitos Hamlets no mundo  tomando Prozac. E muitas Medéias ciumentas nas ruas, não esqueça.

Eu vou embora. Você não vai embora. Tudo bem, está certo, vamos organizar uma saída. Mas onde está a saída? Não existe. Só tem uma. Da nossa proximidade um ligeiro cheiro de loção no ar me assustou. O calor que emanava do chão já não era tanto . A superfície das crateras marcianas das falésias da Pipa começava a adormecer. A perder a cor vermelha. Não raciocinei. Não foi preciso nem pensar para encontrar razões suficientes. Tudo tem seu preço e o desespero, sua loucura. Nada me ligaria ao que ocorresse. O que acabou acontecendo. Um empurrão foi o suficiente. Um forte empuxo nas suas costas jogou o corpo, como uma boneca de trapo, ao abismo. Final sem som, como num filme mudo. Tomei o maior cuidado. Nem manchei as minhas mãos de sangue.

Depois de tanto tempo, constato que realmente os desenlaces implicam mãos. Quer elas sejam suicidas ou não. Disquei o número mais uma vez em procura de paz. Alguém atendeu do outro lado. Alô. Da delegacia da Candelária ? Sim? Gostaria de reportar um crime. Sim, continue, por favor. Sou casada. Estou grávida. Matei meu amante. Senhora , não seria melhor vir até aqui ?

 

 

José Delfino – Medico, poeta e músico
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