O HOMEM QUE CALCULAVA – José Delfino



O HOMEM QUE CALCULAVA –

Recebi a notícia da sua morte, faz uma semana. Viveu exatos 92 anos. Trocamos cartas por quase quatro décadas. Parte da última, não respondida, já um tanto sintomática: “Desde Janeiro deste ano mudei de endereço. Estou num asilo para idosos. Eles aqui tomam conta muito bem de mim. Quando aqui cheguei ainda estava bastante ativo. A minha condição física, entretanto, rapidamente deteriorou.Tive que parar de dirigir. Passo, em parte, o meu tempo recordando o que passou, a ler jornais, rever os meus velhos diários (de 1941 até agora) e fazendo palavras cruzadas e sudoku”. O que me fez lembrar Norberto Bobbio no seu “Tempo da Memória”. Perdi a trilha das nossas últimas correspondências, portanto me perdoe se falhei em elogiar, sentir, ou comentar algum incidente das nossas vidas durante 2016 e 2017. Sempre me lembrarei dos nossos velhos tempos (parece até que o velho físico já antecipava o seu fim próximo). Tudo de bom. Sinceramente seu ”.

Uma máquina de calcular ambulante. Tudo nele era sucinto, direto, lógico, matemático. Sempre temperado com um “quê” místico e cósmico. No fundo, temos um pouco disso em cada um de nós. O seu cálculo não está correto, José, o número de dias não fecha. Como não professor? As calculadoras da “Texas Instruments” não erram. Corrigiu o valor de cabeça imediatamente e com um sorriso maroto, fulminou. Você não incluiu os dias correspondentes aos anos bissextos. Aqueles que de quatro em quatro anos se deveriam acrescentar ao mês de fevereiro. Assim, em segundos , com a naturalidade de quem toma um copo d´água. O raciocínio dele começava de maneira simples, mas na medida que começava a elaborá-lo, as coisas logo escapavam do alcance que ele queria dar à minha compreensão. Alternava o olhar do papel, onde desenhava garatujas, aos meus olhos. Como se estivesse num transe continuamente interrompido.

A qualidade do raciocínio dele era abissal em relação ao meu. E eu ali fingindo que estava captando bem a moral da história. E continuava comentando, trocando ideias, imaginem só. Suponhamos, José, que um adulto médio possa ser reduzido em escala proporcional por um processo de redução fotográfica tridimensional. O adulto miniaturizado assim resultante aproximar-se-ia do recém nascido se o processo fosse interrompido quando a altura estivesse reduzida a 1/3 da altura do adulto, por exemplo de 1,8 m para 0,6 m. A superfície do corpo estaria então reduzida ao quadrado de 1/3, isto é a 1/9 da área do adulto. O volume e portanto o peso corporal estaria reduzido para o cubo de 1/3 , isto é para 1/27 avos. Agora , imagine o grau de aproximação que esse adulto miniatura assemelhar-se-ia a um recém nascido real. Se admitirmos o peso de 3,3 kg para um recém nascido médio e de 70 kg para um adulto médio a proporção real de pesos corporais seria de 1:21 e não de 1:27. Se as alturas médias forem aceitas como 0,5 e 1,75 m , a proporção real das alturas seria 1:3,5. Esses números levam a áreas de superfícies de 0,2 e 1,85 metros quadrados que representam uma proporção real de exatamente 1:9 , igual a obtida pela miniaturização do adulto. Assim, este adulto miniatura teórico representaria uma aproximação muito aceitável do recém nascido, embora o recém nascido real tenha uma altura relativamente um pouco menor e seja um pouco mais gordo do que um adulto proporcionalmente reduzido. Disse-lhe então: Me parece algo inédito o que você diz, professor. E ele: Engano seu, esses princípios gerais foram nitidamente estabelecidos por Galileu em 1638 e a relação existente entre comprimento, área e volume foi enunciada por Arquimedes. Dê um pulo na biblioteca e leia uma abrangente e moderna exposição do tema, em relação a animais em geral. Um artigo do Schmidt-Nielsen.

Tudo, de um certo modo, antecipava o que iria ler num ensaio de 1919, do Bertrand Russel muito tempo depois. Que a visão da matemática é solene. Se corretamente observada, ela possui não somente a verdade, mas também a suprema beleza – fria e austera – sem os belos ornamentos da música, do poema e da pintura. Mas, de sublimidade pura. É que quem se dedica ao seu estudo, o que não é o meu caso, vai continuar considerando as equações tão belas quanto eu acho a Quinta Sinfonia do Beethoven. E para minha surpresa e espanto, ele finalizou. Leia o artigo, vai abrir mais a sua mente. E contribuir para melhorar a redação da sua tese. Próxima semana discutiremos de novo o assunto. Lembre-se que Deus sempre organiza as coisas assim. Cara estranho, eu achava. O tempo curou o meu mal. Hoje o entendo bem.

 

 

José Delfino – Medico, poeta e músico
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *