A VIOLÊNCIA COMO FENOMENO HISTÓRICO – Alberto Rostand Lanverly



A VIOLÊNCIA COMO FENOMENO HISTÓRICO –

Outro dia encontrei Jesualdo e conversamos sobre os acontecimentos da pandemia e a atração pelo sinistro que tem cercado as pessoas nesse período de isolamento.

Ao concluírmos ser o comportamento histórico da ferocidade um dos fenômenos que atormentam a humanidade, Jesualdo poetizou: – A corrente impetuosa é dita furiosa, mas o leito do rio que a contem ninguém chama de violento.

E foi mais adiante, falando que a violência sempre existiu, e ele próprio sentiu na pele tal fato, principalmente no período em que exerceu a titularidade de uma das delegacias da capital alagoana e era tido como bruto por seus semelhantes.

A barra era pesada em dias de plantão, e o preso quando chegava para entrevista, levava logo boas bordoadas no pé do ouvido, para escutar melhor o que lhe era falado. Se fosse ladrão de joias ou residências, era colocado nu e de cabeça para baixo pendurado no teto da casa pelos dedões dos pés. Só deixava a posição circense quando confessava o furto, e se ficasse chateado era pior.

Foi a época, lembrou ele, em que surgiu em Maceió, um grupo cujos bandidos integrantes sequestravam, estupravam, faziam o mal generalizado, principalmente a pessoas do sexo feminino, chegando, ao ponto de, usando um alicate, esmagarem os mamilos de algumas, tendo por tais motivos recebido o apelido de “gang sádica”.

Todos sabiam que os praticantes do mal, eram pertencentes a classe média da capital e que abordavam suas vítimas em saídas de restaurantes, cinemas, reuniões e clubes sociais. A Polícia vivia louca para colocar as mãos nos meliantes, sem sucesso.

Naquela noite, Jesualdo estava de folga e convidara sua esposa Generosa e a jovem sobrinha Germinia, ao cine São Luiz, na Rua do Comércio, para assistir a nova versão do filme “E o vento levou”, que havia se notabilizando anos antes tendo Clark Gable como ator principal. Chegaram cedo e se dirigiram para buscar assentos, que então não eram numerados, onde pudessem assistir confortavelmente a projeção, antes porém compraram chocolate, pipoca e garrafinhas de guaraná Davino, muito popular a época.

Acomodados, Jesualdo entre as duas damas, nem bem o filme começou quando Germinia lhe cochichou: – me acuda, o homem do meu lado abriu a braguilha, está com o bilau duro para fora da calça e se esfregando em meu braço. O tio olhou disfarçadamente e se impressionou com o tamanho da mandioca do exibicionista, imediatamente falou para a sobrinha: – ao contar três, imediatamente troque de lugar comigo.

E assim aconteceu, tempo suficiente para se ouvir gritos na escuridão. As luzes acenderam, e quando olharam, Jesualdo estava com a mão esquerda enroscada nos testículos do cara que urrava de dor, enquanto a direita empurrava um revolver na boca do tarado. Foi uma loucura, parecia jacaré quando morde a vítima e não larga nunca. Os ovos do bandido quase estouram, como também a boca do meliante devido às coronhadas que levou.

Policiais chegaram, e acompanharam o “peça ruim” para a delegacia de plantão, onde logo depois compareceu Jesualdo para completar o surrote. Por um tempo, tal tipo de assedio diminuiu na capital e o nosso herói muito contribuiu para que tal acontecesse.

 

 

 

 

 

Alberto Rostand LanverlyPresidente da Academia Alagoana de Letras

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