A FORÇA DO SONETO – Diogenes da Cunha Lima



A FORÇA DO SONETO –

Willian Shakespeare (1564-1616) é insuperável na sua lírica amorosa. Nesse gênero, privilegiou o esquema rítmico do soneto.

Somente um escritor da estatura de Ivo Barroso, senhor e inventor dos mais hábeis recursos poéticos, poderia fazer a transposição dos poemas.

Soneto, em franco-provençal, é diminutivo de som, significando melodia. A forma teria sido inventada no século XIII por um poeta insular, um siciliano.

É tão sedutora a composição com forma sonetística, que foi usada por Dante (1285-1321), por Petrarca (1304-1374), que a tornou modelo universal, por Camões (1524-1580) e entre nós por notáveis, como Olavo Bilac.

Quando comecei a versejar, cometi muitos sonetos, mas fui, por episódio amoroso, desencorajado. Eu havia feito muitos poemas para a amada, e estes não foram suficientes. Ela me pediu, e depois, com graça e carinho exigiu um soneto. Depois de três frustradas tentativas, senti a composição forçada. E sem inspiração válida, desculpei-me dizendo: Ontem, rasguei catorze versos. Tua beleza não cabe num soneto.

Shakespeare é sábio poeta, além de grande observador das grandezas e das aberrações humanas, do sentimento, razões e instintos que comandam nossos atos.

Há inumeráveis apreciações críticas sobre o Bardo. Até se nega haver existido, ou que seja o autor das obras a ele atribuídas. A verdade estava contida no seu cérebro. Ainda é ficção científica o transplante de cérebros. Dá o que pensar uma fala de Jorge Luís Borges. Após escrever um conto fantástico. Em sonho, ele encontra pessoa que lhe oferece à venda nada menos que a memória de Shakespeare, memória pessoal.

Se fosse realidade tal transação, muito iríamos saber sobre o poeta dramaturgo, suas fontes de inspiração, as margens imaginárias dos seus personagens, heróis e anti-heróis.

O mais profundo estudioso da obra de Shakespeare, na atualidade, Harold Bloom, ainda que se referindo a Hamlet, tem valor de generalidade: “A posição máxima é permitir que nos ensine a pensar”. Mas Bloom confessa: “Não o vejo com clareza. Seu intelecto é superior ao meu”.

O importante é sabermos que enquanto existir a humanidade, ele continuará ensinando. Um exemplo. Neste tempo em que vivemos em confinamento, podemos agir como recomenda Trânio em a Megera Domada: “Animai-vos com música e poesia. Quando pedir o estômago, servi-vos de matemática e de metafísica”.

Nos séculos XVI e XVII, o soneto estava em moda na Inglaterra, com festivas recitações. Shakespeare, que havia feito longos poemas, com expressivos versos na dramaturgia, dedicou-se ao soneto. Muito se disse que eram mensagens secretas de amor. Intérpretes até deduziram uma possível homossexualidade. O fato é que os 156 poemas, em forma de soneto, muito nos emocionam e também nos fornecem um pouco da sua autobiografia.

Certamente, na velhice, o Poeta revela um certo desencanto sobre o poder e a extensão da vida, a ponto de afirmar, pela boca do mágico de “A Tempestade”, que os nossos divertimentos acabam. E finaliza: “Nós somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos e a nossa curta vida tem a duração de um sono”.

Contudo, o Poeta continua atual e provando que a vida é aventura. E bela.

 

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

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